segunda-feira, 30 de setembro de 2013

Terra dos Estios



Meu lábio entreaberto,
solidão em flor,
de beijos deserto
e deserto de amor

Afagos que não
me chegam, e que
não dei a ninguém

Caminham por meus
olhos os sonhos vazios
da terra dos estios
onde me criei!

Como as pedras
deste deserto
eu me resignei

Como  a lua na noite
fria, esperarei

E como o cacto
solitário, florirei!

sábado, 28 de setembro de 2013

Elegia à Prima Esquecida



Pensei em te escrever algumas palavras póstumas,
mas agora percebo que não sabia todo o teu nome,
e me pergunto como pode termos estado numa
mesma família e história sem sabermos como
nos chamar? Quem eras tu?... Um ente que viveu
para ser esquecido? Uma história distante fadada
a desaparecer no tempo?... Te ofereço esses versos
que nasceram do silêncio de tua partida e com as 
minhas mais sinceras desculpas por teres ido tendo
ainda os teus primos como estranhos! Espero que tu
tenhas sido feliz com teu marido e filhos, e na casa
que escolheste para viver teus últimos dias! Que a
vida tenha sido branda contigo pelo menos no final,
e que nos reencontremos no futuro senão como irmãos
ou como cúmplices, que seja pelo menos como amigos!

sábado, 21 de setembro de 2013

Receita Mágica para Voos Noturnos


Para voar é preciso apenas
duas notas de silêncio,
uma asa bem ritmada,
um perfume de sonho,
com algumas gotas 
de nostalgia,
e um olhar que perfure
a aparência vã das coisas

Cai bem uma memória
que não tema lançar-se
num ou noutro abismo
de sentimentos, mesmo
dos que pareçam mortos
de tão velhos!

Nem que se tema ficar perdido
no labirinto de alguns poemas

Um momento de introspecção ajuda,
bem como uma xícara de chá bem quente,
ou mascar folhas de louro
como as antigas pitonisas, afinal
profetizar algumas rimas
ajuda a manter a cadência
que faz deslizar pelos poemas
as mais ásperas durezas...

Mas o fundamental mesmo,
e é bom que não se esqueça,
da vassoura ou da caneta, pois
para voar é preciso mesmo
ser uma bruxa ou um poeta!

sexta-feira, 20 de setembro de 2013

Inundação



O vento trouxe 
a chuva que esparramou 
seus versos 
pelo telhado, 
na calçada,
respingou sua música 
no poema 
que eu escrevia...
Nem notei quando 
a chuva inundou 
minha poesia!

quinta-feira, 19 de setembro de 2013

Minha Avó





Para Irma Maria, minha avó

As tuas mãos
- delicadeza do tempo -
rezam, curam, temperam
a minha vida...
Contas-me, ainda eufórica,
como eram teus sonhos
de menina
e da saudade que sentes
ainda de tua mãezinha...

Tua casa é teu reino amoroso
onde criaste tua família
e onde perdeste também
um casamento e um filho!

E isso não te revoltou
contra a vida, ao contrário!
Fez-te agradecer a Deus
pelo que ficou e pelo
teu dom de ainda 
sentir alegria

É lindo quando falas nos milagres de Deus,
olhas para a imensidão do céu!...

Quando eu falo na imensidão de Deus,
eu olho pra ti!...

quarta-feira, 18 de setembro de 2013

Primavera



Para mim a primavera
começa quando
o ipê roxo floresce
na calçada da avenida
Osvaldo Aranha,
que fica parecendo
o palco pra um
festival de dança...

A primavera se anuncia
quando nas árvores
das ruas Felipe Neri,
Freire Alemão e
Eudoro Berlink
os sabiás cantam
como um coro de meninos
muito ensaiado e chique!

A primavera é
um festival de arte silvestre
nas ruas de uma 
pequena grande cidade
como o é Porto Alegre,
que muito cresceu, mas
teve a delicadeza
de se manter interiorana...

Catavento...




Há vezes na cidade
que fico perdido
igual a um catavento
que percebe a direção do vento
mas não voa com ele...

Mas tudo bem, 
viver é aprender a dura lição
de que nunca, ou quase nunca,
a gente voa com
os sonhos que tem...

terça-feira, 17 de setembro de 2013

Inspiração



Meus versos, às vezes,
descem à abismos submarinos
e ficam lá, tranquilos,
relaxando na profunda sombra...
Tecem preces,
ouvem a música do silêncio,
depois guardam-na 
na concha dos ouvidos

Outras vezes sobem às alturas
na ânsia de sua busca;
meus versos estão
à procura de Deus
dentro dos sentidos...

Embrenham-se também
por florestas densas,
retiram-se à castelos
elementais de gnomos,
duendes e hamadríades

Meus versos são andarilhos,
peregrinos de mundos mágicos
que perscrutam conhecimentos
ocultos,
e que por misericórdia apenas
sussurram-me uns poemas
tão breves como suspiros...
Como este que agora aqui
convosco compartilho!

segunda-feira, 16 de setembro de 2013

Vislumbre



Desenham contornos 
arabescos as bordas 
das nuvens ao vento

Desenham letras na praia 
as conchinhas douradas 
à beira mar

Mas e o tempo? Ora quem
nesse mundo agitado o tem?

A vida escorre nas estradas,
no escritório, no trem!...

As conchinhas, as nuvens...
Coitadinhas!... Não se mostram 
a ninguém!...

O Que a Solidão me Fez...



Foi por solidão
que me empanturrei 
de comida,
que envelheci
além da medida, que chorei
em horas impróprias
ou pelos motivos 
mais tolos...

Porém, não cedi
à amargura,
me enchi de poesia, 
rememorei pessoas
que partiram
e aprendi com
as dádivas
que deixaram comigo
mas que nunca 
antes as percebi...

Vi Deus em todas
as coisas!
O descobri
em velhos cadernos
em que
minha inocência 
estava refletida, 
nos rostos dos jovens amantes,
dos idealistas políticos,
e sem cobrar 
nenhum senso de justiça,
apenas maravilhei-me 
com Deus onde eu o vi...

Senti,
e apenas isso,
senti
que uns talvez
tenham nesta vida
a oportunidade
de viver tudo do amor,
enquanto outros possam 
apenas sonhá-lo...

Muito embora
seja esta uma descoberta
própria, intransferível
e sem garantias,
cuja resposta
nos aguarda no fim da vida.

sábado, 14 de setembro de 2013

Do Vasto Eu...



Dentro de mim está o outro eu que de mim se oculta
e vez por outra ponho-me a pensar:
será que todos tem ciência do outro eu que nos habita?

Ele às vezes vem na forma de um sonho, ou de uma fantasia,
às vezes se disfarça em nuvem, ou em um devaneio da infância,
e há vezes também que ele pensa que é Deus!...

Esse nosso outro eu é uma figura! Pode ser nossa maior mentira
ou nosso maior loucura. Um gesto súbito de bondade,
ou um surto homicida!...

Nosso outro eu tanto pode ser um santo quanto até um poeta!
Dele só sei que habita nossa alma, portanto,
tem moradia incerta!...

sexta-feira, 13 de setembro de 2013

Outra Vez Sobre Nuvens...



As nuvens espiam
por sobre as janelas,
enquanto deslizam 
por horizontes
sua mística brancura...
Olham pelas frestas
das esquinas,
e no parapeito
das coberturas

As nuvens fazem-se chuva
por pura paixão,
é só pra nos lamber a pele,
e entrar pela boca até
nos achar a língua
para um beijo diluído
em gotas...

As nuvens vivem 
com os homens
um caso de amor proibido

Elas dançam por suas cabeças
enquanto eles, feito gatos,
enrodilham-se aos seus pés

As nuvens são fiéis,
em suas rondas
sempre passam para nos dar
mais uma olhadinha
como quem vela
por seus pequeninos,
antes de seguir
- sempre silenciosas -
o seu destino...

quinta-feira, 12 de setembro de 2013

Sobre Nuvens



As nuvens são
as embarcações 
do pensamento,
caminham em silêncio...
Em seu misterioso destino, 
móvel e silente,
deslocam-se por sobre
o destino das gentes

Pastam orações,
lambem segredos,
ouvem juras, rancores
riem de nossos amores,
e choram por nós
em suas preces...

Nuvens viajam o mundo 
para nos visitar,
velam por nós
em suas rondas

E seu maior segredo é que 
as nuvens transam 
com o vento,
e fazem caretas 
para as crianças...

quarta-feira, 11 de setembro de 2013

Sobre Abandonadores...


Inebriante, cálida, pálida e tremeluzente
a luz da rua chorava vagamente e a brisa
levava pra longe notícias do vento sobre
os entes que partiram e vivem... Eles ao
contrário dos mortos, se foram movidos
pelo itinerário do desprezo, do repúdio,
desamor ou ódio. Os maiores abandonos
talvez sejam os dos vivos, pois que quase
nunca apresentam seus motivos, não falam
abertamente... Saem com sorrisos e levam
consigo as chances de redenção. Quem se
vai, não merece perdão! Merece o mais
absoluto esquecimento! Mas um assim tão
fundo e vasto, que do rosto reste menos que
traços e do nome menos que o som. Nas
histórias eles não merecem ser citados em
nenhuma! E a quem se pergunta por eles
deve-se ignorar completamente como se
fossem temas hereges em nossas vidas...
Eles são fantasmas agourentos de um tempo
em que não nos permitimos amor, e que
se deram assim como encaixes desastrados
que se dão pelos caminhos... Não merecem
citação, nem nada que denuncie a aparição
de suas histórias em nossas histórias. E se
acaso achas que isto é atitude extrema acho,
sinceramente, que nem merecem um poema!

terça-feira, 10 de setembro de 2013

Voz das Águas



Voz das Águas vieste até mim como alguém
que canta a um ente amado e há muito perdido.
Encontrei em ti a semelhança com os meus ritos,
com os movimentos da dança tão intimamente
ensaiada pelos meus dias de muitas e muitas vidas...

Voz das Águas o que me falas é tão claro e liso
quanto a luz do sol no dorso azul-claro do dia!
Não te ouve os que te bebem, te desconhecem
a íntima vida que pulsa na tua consciência límpida, 
e na tua face tão tênue, amorosa e cristalina...

Voz das Águas a velha Mãe Terra seca dia a dia,
suas estradas que eram floridas, suas naus vegetais,
suas cores, seus pássaros, seus animais são agora,
Voz das Águas, um eco perdido na curta memória
dos homens que ignoram que também agonizam!

segunda-feira, 9 de setembro de 2013

Entre Versos e Estrelas



Ando a procura de algo que se me escapou
por entre os dias,
o sentido de viajar no alto das palavras
e dentro delas também...

Há um lugar onde meu outro eu se refugia
do ventre da névoa dos desejos, 
do fumo inebriante das conversas,
das ânsias ermas e sem sentido 
que pulsam nos bares, nos prostíbulos
e nessas tocas dos instintos
onde uma falta ainda maior de sentido
da vida 
procura se afogar...

Olho para meu poemas
como os entes ancestrais olhavam
embevecidos as estrelas
e procuravam nelas o sentido de se estar aqui...

Hoje, enfeitiçados por nossa ciência,
cremos que de fato viemos de bem longe,
junto de algum meteorito... Mas há ainda
nisso tudo uma total ausência de sentido!

Olho meus versos como quem decifra pergaminhos
sem a certeza de que seus significados 
foram totalmente apreendidos!...

sábado, 7 de setembro de 2013

Entendimento Poético



Como pássaros que fogem de gente
meus versos fogem dos olhos profanos...
Caminham por corredores insanos
os olhos de quem os lê simplesmente

Meus versos são poemas e a semente
de sentimentos profundos e arcanos
que apenas se revelam aos decanos
que a alma em si guarda intimamente

A compreensão crítica se esgota
no sentido da palavra, e o coração
assim que vê seus símbolos não embota

Seus canais de entendimento na razão.
A alma é como uma pequenina ilhota
na mente cercada de incompreensão... 

quinta-feira, 5 de setembro de 2013

Presença



Meus versos me conduzem
como dóceis cães guiam
os cegos pelos caminhos

Como as gaivotas que
anunciam a terra aos
marinheiros perdidos!

Por entre um mar de gentes, 
de rostos, de posturas
condutas, e amores...

Sob a luz do dia e sob
o jugo do mundo
e do tempo das coisas

Me elevam ao desconhecido,
a algo que apenas por 
estar próximo ilumina

Esse algo, essa presença
que se estende do absoluto
ao comum dos meus dias

Meus versos me guiam 
como dóceis corcéis que se 
perderam na ventania, e que

Jogados no vazio da pradaria
abandonam o chão do corpo e
voam em direção ao infinito!...

segunda-feira, 2 de setembro de 2013

Prece



Minhas paisagens têm sombras
azuladas e tons de negro reluzente,
brancos opacos, ouros brilhantes
azuis ácidos e vermelhos  neon

Confundem-se em meu céu as 
estrelas dos meus pensamentos
com os astros do firmamento
que me guiam aqui no chão...

Entes amados sentam à tarde
nas varandas do meu coração,
em conversas sobre a vida, em
anedotas, poemas e canções

Caminham por meus caminhos
todos os que um dia eu amei,
os vivos, os mortos e todos que
sonham a vida além da razão!

A areia lisa das praias onde eu
deitei languidamente a minha
solidão, viaja no vento levando
meus versos e minha paixão

Meu mundo tem tudo, tudo e
nada tem! Meus sonhos, quem sou, 
o que sei, não se dá a ninguém!...
Vivo noutros mundos e além...

E noutros mundos além de mim
haverá quem sonhe meus sonhos,
e anseie meus talentos e vícios  
também?... Tomara que sim... Amém!

domingo, 1 de setembro de 2013

Elegia à Musa



Dos teus versos nasciam limoeiros verdejantes
e jardins sussurrantes dos tempos do império,
casas antigas, meninas magrinhas da Polinésia,
oratórios e longas conversas com Deus e com
astrólogos! Caminhavas entre um mundo de 
sonhos, e teus versos aos aeronautas sonharam
as alturas do mundo e da vida! Foste mais do
que cabia no teu nome Cecília, e dos teus olhos,
verdejantes limoeiros melancólicos, escorria a
amargura de uma família ancestral de mortos...

Pastora de nuvens, e dos meninos tristes em Pistoia,
compunhas em versos as lágrimas dessas mães, 
pois que entendias as dores do mundo e das famílias
que clamavam pelos tempos por seus rebentos!
Foste a amiga das florestas e das estrelas, e de tua
alma desprendia-se o perfume da poesia que subia
às alturas em uma solitária peregrinação poética...
Quando partiste as nuvens rastrearam o chão à tua
procura, e os gnomos escavaram a terra pra saber 
onde os homens enterraram a sua maior fortuna...

Encontro Sobrenatural

A rua estreita iluminada com luares que enfeitavam de outros ares a viela urbana, que assim preenchida de um silêncio antigo, guard...