quinta-feira, 21 de junho de 2012

Outono... Inverno



A terra descansa da lida
das flores e dos frutos.
O sol mais cedo morre nas
entranhas do chão

e o vento suspira cada vez
mais longamente...
No canto dos pássaros
que é quase um choro...
Nas lágrimas amarelecidas
das folhas de outono...

Dorme a paisagem numa
estação de silêncios
onde o passo se apressa
com o frio da noite
enquanto descem, discretos
os toldos dos restaurantes,
e até os grilos se encolhem de frio...

"É tão triste!" dizem alguns.
"É tão escuro!" dizem outros...
"É tão bom!" digo eu.

As dobras do tempo vão se chegando
e as portas da luz se fecham
nessa estação!
Os que olham pra fora
veem a dor que já estava lá!
Enquanto os que olham pra dentro
reencontram a luz!

segunda-feira, 4 de junho de 2012

Elegia Canina


in memoriam à uma cocker spaniel inesquecível!...


No dia 4 de junho de 2009
morreu uma encarnação da ternura
que atendia pelo nome de Julie,
vivia sobre quatro patas,
olhava com irremediável doçura
e nunca, nunca mesmo,
mostrou desafeto por quem quer que fosse!


Recebia a todos com gravetos de flores
latinhas de suco e até
com seu bem mais precioso:
Uma boneca de pano
com cabelos vermelhos
que oferecia à altura da mão
dos visitantes até que a pegassem.


Sobre aqueles que temia,
ou muito estranhava, apenas olhava
e sobriamente oferecia a pata direita
como quem formalmente repetisse
um cumprimento social de
"Bom dia", sem baixar, nem diminuir
a candura daquele olhar!



















Sempre esteve ao lado dos seus
em crises, doenças ou acessos de choro,
ali ficando até a melhora, e então dormia
como quem tivesse cumprido uma missão.
Não era meu animal de estimação
mas de uma tia, já falecida, que a tinha
como sua maior amiga e melhor companhia.


Ela morreu de modo indigno
- sacrificada - porque a humanidade se
incomoda quando seus bichinhos
adoecem e já não podem ser atração
na ponta de uma coleira.
Não me despedi, e confesso que na correria
que eu mesmo criei, a esqueci.


Com um tanto de remorso, saudade e culpa
escrevi o que já havia reconhecido:
Que toda a bondade que se sonha e idealiza
na humanidade ela já tinha.
Enquanto nós com nossos livros
tratados, religiões e sonhos
andamos apenas procurando ser...


Sem tratados ou religiões,
filosofias ou opiniões,
ela me ensinou a ser cordial
com os estranhos e mesmo
na desconfiança, a ser gentil.
Me ensinou a ser fiel sem cobrar um preço
e mesmo que sem dizer nada
passar a certeza de que se está ali!


Escrevi esse poema para que mais
pessoas saibam que ela esteve aqui
e para que se lembrem
de que tudo o que ela foi
é possível a nós, embora mais difícil,
pois carecemos de pureza,
já que a inteligência também
criou a ambição e a concorrência!


Por isso e pelo carinho,
pela recepção calorosa,
pelo toco de cauda abanando
depois de um longo dia de esforço,
pela boneca de pano entregue na mão,
pelo amor e a confiança
e pelo toque amoroso do olhar...


MUITO OBRIGADO POR TUDO JULIE!