terça-feira, 22 de setembro de 2015

Caminhante



É preciso pagar o aluguel
até desabitar o próprio corpo

E pagar a luz e a água até
esvair-se a nossa própria energia

É preciso tomar cuidado nas ruas
até a liberdade tornar-se um sonho

É preciso acreditar nos fatos
até o ponto da nossa própria loucura

Enquanto isso vamos ficando
cegos, cada vez mais, de estrelas

Vamos ficando surdos de elogios,
de poesia, e gentilezas...

Vamos ficando mudos de cortesia,
de incentivo, e interesse mútuo...

E assim caminhamos todos os dias
extinguindo a humanidade do Mundo...

quinta-feira, 10 de setembro de 2015

Entardecer



Delicadamente os remos da luz
foram turvando o oceano azul
do claro espelho do dia,
primeiro de dourado e cinza,
depois de púrpura e marinho...
E a barca do sol mergulhou
nas profundezas do horizonte,
e só os resquícios da luz
ficaram faiscando 
no olhar da estrelas

Mas, de novo, houve poucos a percebê-las.
Trancafiados na caixa de concreto,
que verticalmente chamamos de casa,
viciados que somos em nossas neuroses
com fascínio e terror acendemos as tevês
pra não perder a novela, aquele jogo, 
aquele capítulo da série... Enquanto 
a vida se esvai sem mais nem por que...

Estrela Urbana - Ou Um Ensaio para a Imortalidade



No topo do mundo
uma estrela,
e no ângulo da estrela 
uma antena de celular

Antes fosse
um zigurate babilônico,
ou uma torre medieval,
onde uma dama sonhadora
aspirasse ao infinito...

Mas trata-se de uma torre eletrônica
que recebe e emana pro invisível
sinais que unem povos
que  se comunicam
sem nunca se entender...

Mas a estrela, que não mudou 
ao longo dos breves séculos humanos,
encontrou o olhar 
de mais um poeta que,
como tantos outros poetas,
cantou e decantou a imensidão e as estrelas
ao longo dos breves séculos humanos...

O tempo passará,
as torres passarão, 
e o poeta também...
Mas o certo é que
num futuro incerto
o olhar de pelo menos
mais um poeta
encontrará outra estrela
- ou quem sabe a mesma estrela? -
pairando silenciosa
no topo do mundo...

terça-feira, 1 de setembro de 2015

Metamorfose...



Só sei que envelheço
e que a velhice está me tornando subversivo.
Ando tonto de sonhar meus sonhos...
E sonho em descumprir as minhas regras!
Como todos forcei-me a ser certo e preciso
naquelas coisas que nos dão o pão.
No trabalho desabrochei talento,
nos horários exatidão.
Cumpro agendas e a palavra...
Sorrio, cumprimento e, de vez em quando,
me espremo na solidão para escrever uns versos...
Que dizer de mim? Sou velho! Sou gordo...!
Mas inspirado, letrado e profundo, 
cortês e até engraçado! Às vezes choro sozinho,
mas nem sempre de medo, de tristeza, ou de
solidão! Às vezes choro só por beleza...
Sempre foi de minha essência
- Próprio da minha natureza -
ser sensível às coisas do coração...
Mas o tempo anda assim
me deixando mais e mais maluco,
menos covarde... E às vezes até
eu atraso alguns minutos...

Destino

Vejo nas pessoas os arcanos que aguardam decifração,  elucidação, tradução e respectivo entendimento de si para si mesmo... E é just...