sexta-feira, 28 de outubro de 2011

Paisagismo



Pintura de Marineusa Lopes



De repente olhei em mim
e vi um mar rumuroso
com um sol dourado 
debruçado sobre ele...


Vi peixes prateados 
de olhos azuis


E homens sereias
e mulheres guerreiras
e crianças pescadoras


Na praia, as pedras
eram pintadas
de giz de cera!


E as gaivotas
vinham saber sobre mim
antes de mergulhar 
no azul do dia


Eu sou muitas coisas
eu sou as coisas todas!


O universo flutua em mim...


Em vosso mundo quadrado
não cabe o meu espaço!...

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Pescaria


O poema inacabado
sonha ao meu lado


Dormem também
os transeuntes da rua
dos jacarandás floridos...


Só eu não durmo!
Estou pescando
esperança


À beira
dos meus abismos...

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

*Samhain





















Vigia, a colheita
finda agora
e o tempo esvai-se
por entre
folhas douradas...


O sol deita
no horizonte,
morre lentamente,
como morremos todos.


Vigia, o tempo
é uma ilusão
da mente... tudo,
hoje e sempre,
continua sim


eternamente...

*Ritual celta de passagem do ano.

Despedida






















A meu pai, Jorge

Dormiam teus olhos
um sono para a eternidade


E todas as palavras
bonitas, os versos escritos...
Nada
servia ao meu coração
como oferta, dádiva
ou conforto
para o teu último leito!...


Queria te dar
muito mais do que
eu tinha...


Eu queria te dar
mais uma vida!


Sshhh

























Deixa, o tempo
nada pode contra
os que percebem
no fim um leito
na eternidade...


Sem palavras,
sem esforços,
onde respirar
ou transpirar
não é preciso.


Onde só o silêncio
toca uma flauta muda
do coração de Deus
à concha dos nossos ouvidos...


Casarões

















Os casarões
na madrugada sonham
com vivos
assombrando os mortos


Roubando-lhes a mobília,
deitando-se
em suas camas


Ferindo-lhes
a memória que, enfim,
são tudo o que lhes resta!


Danação


















Carregas contigo
a semente do brilho
que eu trazia aqui dentro...


E que jaz agora
não acontecido
porque eu dei a ti
o que nunca
poderia ser dado...


Eu te dei a magia
de ser o que eu era,
meu riso e minha poesia...


Agora eu tenho apenas
migalhas de mim!...


Insone



Os cavalos da insônia
com seus cascos e estalidos
de pensamentos e suspiros


Pastam à beira da minha cama

Estendo a minha mão
aos seus focinhos
e os acaricio


Até sentir o pouso
suave do sono...


E eles partiram
enquanto as estrelas
cantavam baixinho...