quarta-feira, 20 de junho de 2018

Poção



Traz um pouco
de espuma
de água da chuva,
uma lágrima
de alegria,
um suspiro de saudade,
e um raio de prata
da lua

Mistura tudo
com chá de artemísia,
toma três goles
e o resto despeja
na terra que
o teu amor há de pisar

Depois te entrega
num beijo e diz a ele
que o teu amor 

e o da Deusa
são um só!...

quarta-feira, 23 de maio de 2018

História para Ninar...



"Vive dentro da noite os monstros e os fantasmas,
e nos contos de cuca, e das almas penadas 
que balançam cadeiras vazias nas casas,
onde vivem velhas insones e malvadas

Que guardam criancinhas nos cômodos ocos
a ranger de medo dentes cerrados, e nada
se ouve de fora apesar dos seus muitos socos
nas paredes do quarto ao pé daquela escada..."

"Agora chega!" nos diz à beira da cama
mamãe que havia nos atendido para
nos contar uma história bem estranha

Sobre coisas que não se imagina, mas se ama
ouvir e tremer do medo que nos encara
quando as garras da imaginação nos apanha...

terça-feira, 3 de abril de 2018

Amor de Chuvarada...


Para quem corria debaixo dela
era chuva molhada, persistente, chata!

Para o poeta era poesia escorrendo
em versos, em rimas difusas, em fluxo
ritmado pelas alamedas.

Para o transeunte era um rio urbano
que encharcava sapatos... 
Mas assim é o mundo dos poetas.

É como o Amor dos outros, bonito
pra quem sente, e enjoado pra quem olha;
melado, grudento, exagerado!

Mas quem ama... Levita!

segunda-feira, 12 de março de 2018

Poeminha dos Descaminhos...



Sapatinhos, sapatinhos... Cansados, puídos
me assistem escrever este poema sozinho...

São minha plateia e condução, pelos rios
de asfalto dessa vida... E o poema,
pobrezinho, logo é jogado neste mundo
frágil e sozinho... Vai rolar por este mundo
até virar canção, apelo, prece... 

E, se tiver sorte, vai comover e se abrigar 
dentro de um coração, que o carregará 
como uma joia ou preciosa recordação...!

quarta-feira, 17 de janeiro de 2018

Lonjuras da Memória...


À minha vó Maria... In Memoriam 

Havia sempre livros na mesa,
mas quando eu chegava ela estava
com a tevê sempre ligada, mas nunca
na frente dela, nunca à ela presa...

Conversava com a vizinha dos fundos,
olhava, às vezes, absorta o parreiral...

À noite mergulhava nos livros...
Foi com ela que aprendi a voar 
com o invisível!

terça-feira, 9 de janeiro de 2018

Interlúdio Vazio...


O suspiro do tempo nos olhos dos gatos
que miram o vazio com absoluta atenção,
e no olhos dos velhos que fitam o longe
e o firmamento....

Pra onde vão seus pensamentos?
E os nossos pensamentos para onde irão?

O suspiro do tempo naquela esquina 
onde o sol se inclina antes de encerrar
mais um dia... 

Ai que me dói esses
suspiros do tempo...!

Mas e o tempo? Suspirará mesmo
por quem?

Poção

Traz um pouco de espuma de água da chuva, uma lágrima de alegria, um suspiro de saudade, e um raio de prata da lua Mistura tudo com chá ...