quarta-feira, 16 de agosto de 2017

Monólogo



Para não enlouquecer eu sinto,
e na ânsia de gritar... Não grito!
E quando é para cantar, 
canto baixinho.
E quando é para sonhar,
sonho com o infinito...

E, às vezes, me pergunto
como pude viver tão sozinho?
Acho que eu era guiado
por um sonho alto... Bonito...
E depois que o sonho
virou fato, e que 
encerraram-se todos os atos,
é que me vi sozinho no palco
à frente de uma plateia 
sofrida, mas sorridente que 
entremeios e entre-mentes
ajudou a construir
meu espetáculo e, 
sinceramente, 
não me arrependo de nada!

Só quero escrever outra história
pra inaugurar outra temporada
de menos silêncios 
e mais sentimentos,
de menos vazios 
e mais risadas...

Cântico



Tinha um tempo em que 
eu ouvia mais a cantoria das coisas...
Da chuva, dos grilos, do farfalhar
das árvores na flauta do vento...

E até a cantoria do silêncio
que estalava na casa
quando a noite caía...

Nos meus sonhos ouvia
a cantoria da lua e da neblina...

E, de repente, a música das coisas
se calou...

Mas às vezes eu sinto que não,
que o cântico de tudo penetrou fundo,
e me tornou uno com as coisas do mundo...

terça-feira, 18 de julho de 2017

O Sagrado Amor...



Talvez o único real aprendizado
à cada alma sobre esta terra devastada,
seja mesmo o do infinito e tênue,
tremeluzente e bruto,
aterrador e puro Amor...

O Amor que arde no sexo, 
que dói na saudade, 
que se esvai com os dias...

O Amor sonhado, o Amor dos fatos, 
e, por fim, o Amor dos Santos
que é o mais elevado!
Porque não vê cor 
nem gênero. Vê gente...

Que não vê ideologias, 
vê sonhos que voam...
Que não vê a violência,
mas a falta de Amor...
Que não vê orientações
mas a busca do Amor...

O Amor puro dos Santos,
que vive dentro de cada um 
como uma semente sonhando
que um dia será Flor...

segunda-feira, 19 de junho de 2017

A Casa Mágica...



A casa tinha muros cobertos de heras
que trepidavam à noite com a cantoria dos grilos...

O concreto úmido por debaixo delas 
dormia um sono profundo...

E apesar dos sons fortuitos do jardim e da rua,
dia e noite, o silêncio abraçava tudo
como um amante ciumento cerca sua amada...

Por dentro era quente e aconchegante,
poltronas aveludadas que pareciam convidar ao repouso

Uma lareira pequena e sólida que parecia
sequiosa dos rigores do inverno...

E cômodos perfeitos que pareciam em si
pequenas casas que aguardavam seus donos...

Janelas à frente, em direção ao jardim silente,
janelas laterais que confrontavam muros verdes...

E atrás um pequeno jardim de inverno
onde pássaros e gatos conviviam 
em harmoniosa indiferença...

Na cozinha armários perfeitos pintados de branco
um fogão com forno grande... 
Temperos nas prateleiras das janelas,
basculantes largos pintados de azul e verde...

Nessa casa faziam chás saborosos 
de receitas secretas,
bolos, de milho, laranja e maçã 
como nunca se havia provado!

Liam-se oráculos e sonhos,
conversavam com as plantas e os gnomos

Punham pedras ao sol,
benziam, rezavam, 
e pouco se importavam
com o mundo da lógica
que dá voltas atrás
do próprio rabo!

De fora era só um velho sobrado
do bairro Cidade Baixa
onde quem passava pouco se admirava
uns até diziam: "Cruzes!"...
E outros só olhavam...

E os que a admiravam
bem, esses nem sabiam,
mas haviam sido escolhidos pela casa...

quarta-feira, 31 de maio de 2017

O Espelho de Outros Mundos...


O espelho embaçado é um portal inventado
pela cantoria das panelas, que inundam a casa
com seu bafo...

O outro mundo dentro do espelho
é um submundo baço e aquático...

Ou uma viela estreita por onde passam
corredores de neblina que fogem por toda parte?

Ou quem sabe seja mesmo um portal feérico
aberto entre o corredor e a cozinha,
por onde escapuliu estes versos...?

Ou quem sabe ainda seja eu quem viva
dentro de um mundo imaginário,
a reproduzir daqui as cantorias do outro lado,
onde o mundo verdadeiro palpita inconsciente
das inúmeras realidades 
que habitam o tempo
em múltiplos espaços...?

segunda-feira, 22 de maio de 2017

Feitiço da Noite...


Dorme a estrela por sobre
o seu cobertor de casas acesas, 
como um espelho do céu...

Olha a lua o infinito,
guiando infinitamente
todos os sonhos do mundo...

As hordas da aurora
repousam longe, longe...
E os salões da madrugada
deixam a linha do horizonte
indistinta e, indistintamente, 
enegrecida as fronteiras
das lendas e da vida são
subitamente interrompidas!

Vês? O sonho agora habita 
os montes, as praças,
a luz das lâmpadas e das 
lamparinas... 

Vês? A vida toda está vestida
de cânticos e rimas, folheada
à encantamentos e poesia...

Eu junto com estes versos
a estrada de milênios
desta noite...

Meu pensamento segue
aspirando às alturas
como a fumaça do incenso...

Ouve.. Nos arabescos do vento
sonham comigo as cantorias
dos grilos e dos outros poetas...

terça-feira, 25 de abril de 2017

Estio Poético...



Tenho um rio
de versos
que secou com os dias...
Não sei onde foram
as asas que me
elevavam...
Meu rio de sonhos
agora é uma cova
vazia,
onde nem mesmo jaz
a minha poesia...