quinta-feira, 18 de agosto de 2016

Remissão



Quando vejo certos versos, achados em velhos cadernos, 
me espanto! Quem era aquele que escrevia? 
Que triste e romântico... Tão solitário o coitado!
Mas sonhava bonito e rimado com o amor. 
Esperava farejar o seu cheiro pelo vento, entre o dias... 
Sonhava com mudanças, e escrevia versos 
como quem pedisse socorro!

Hoje não espero mais nada. Escrevo versos 
como quem pendura bandeirinhas na janela,
ou acende incensos na varanda. Sem a angústia 
de longas esperas, só o aconchego,
morno e silencioso, 
de ofertar beleza e gentilezas a quem passa...

quinta-feira, 21 de julho de 2016

A Construção das Coisas...




Que não nos vençam esses caminhos 
crivados de dor e ausências, esvaziados
de abraços, lembranças e sonhos
e de memórias ancestrais... 
De risos por nada, de gentilezas
simplesmente esparramadas
para o outro, sobre o outro,
de muito amor dado de graça...

Mas tais caminhos de amor
nunca foram trilhados, foram só sonhados
(eu sei que vós todos me direis),
tu és poeta e não sabes de nada!
Tais coisas nunca houveram, nem haverão...
Tudo o que temos é o que sonham
os outros que anseiam esses sonhos...
Mas como são loucos, nunca os seguirão...
São bonitos e loucos, mas são tão poucos
os que sonham tais sonhos que nos resta
chamar de loucos esses que assim como tu
anseiam tais coisas, tão simples e puras,
mas que nunca existiram, nem existirão...

Mas enfim, faz parte de mim, e dessa sina
de escrever sonhando o que anseia
essa voz íntima, que toca as outras vozes
secretas que habitam os outros corações
que, apesar de empedernidos, se enlevam 
e suspiram baixinho comigo ao lerem 
meus versos... A esses dedico o meu
sagrado ofício de desenhar os caminhos
que os sonhadores do futuro realizarão!

terça-feira, 24 de maio de 2016

Aquário



As lágrimas da noite embaçam a vidraça
e criam um mundo turvo e paralelo...

De repente estou num estranho mundo-aquário
onde tudo é vago, nebuloso e solitário...

Onde divago com meus sonhos de corsário
e de errante pelas vagas da noite rumorosa

Caçando os sentidos com meus versos
guiados pelo clarão da lua imaginária...

Enquanto a lua real treme de frio lá fora
enrolada, em vão, nos lençóis da neblina...

quarta-feira, 27 de abril de 2016

Sobre Poesia e Poema


À Vania de Oliveira

Um racionalista dirá que a poesia é a matéria, e o poema o produto... Como poeta lhe direi que a poesia é a árvore, e o poema o fruto!

quarta-feira, 20 de abril de 2016

A Casa Poética



Fiz da poesia minha casa,
construída de tijolos firmes
de sonhos deste mundo,
e de outros mundos também...

Estendi lençóis de música
alva e tênue, de rimas discretas,
para aconchegar os olhos
que pousassem sobre meus
versos (aéreos e fluidos...)!

Abri canteiros de terra fértil
onde qualquer sorriso poderia
florir em profusão, e subir
aos céus do pensamento
dos que amassem 
amar meus versos
de todo o coração...

Construí minha casa na poesia
para que meus mortos tivessem 
onde morar e seguir sonhando,
coisas deste e de outros mundos,
e onde eu pudesse abraçar 
os amigos novos e esquecidos
num abraço de uma vez só!

sexta-feira, 8 de abril de 2016

Canção das Searas



Cai, pétala, lágrima, folha levada ao vento,
cai um pouco do tempo a cada noite que cai
e a cada sol que levanta... Anda, tua história
não se faz no chão da inércia, nem dentro dos 
braços mais doces e amorosos... Tua história
tá lá fora, nos sussurros das sombras, no aço
da vida, nos uivos da matilha e tudo o mais
que se faça não vale é nada...! 

O que não nos custa o sangue e não nos verte
lágrima, não constrói nada. O que não nos faz
respirar mais fundo e forte, e nos rouba um tanto
do sono e da noite, e nos faz não temer a morte...
Bem, isso passará e tu passarás também, sem teres
contado ao mundo uma única nota, sílaba, canção
ou verso sobre o que vieste fazer aqui e sobre 
o sentido de teres existido na existência de outros...

quarta-feira, 23 de março de 2016

Precipitação



Então a poesia é isso,
uma pétala que despenca
de uma altura imensurável
e desconhecida,
e me ilumina,
e me refresca
como chuva cristalina,
e verte dos meus dedos
como perfume
em gotas... Em letras
que viram de novo pétalas
que atiro a quem me lê...