quinta-feira, 14 de setembro de 2017

Concha



A gente se contamina
de si próprio 
e nem percebe...

Se toca, mas
não se sente,
se repete,
se esquece
e continua

A coisa mais dura
do mundo
é curar-se de si mesmo...

terça-feira, 12 de setembro de 2017

À Flor dos Versos

Soube que Carmen Sílvia Presotto nos deixou no dia 11/09/2017, ela foi uma cliente que me incentivou a criar este blog para mostrar os meus poemas ao mundo... Eu a chamava de Fada Madrinha dos meus versos, e eles vieram assim em homenagem à Carmen, que subiu a escada dos versos e se perdeu de nós...



À Carmen Sílvia Presotto In Memoriam 


Lembro que vi em ti 
um roseiral cintilando ao sol,
e pássaros de fogo 
desdobrando-se nos céus!

Eu vi em ti a tua poesia, 
e mais que a poesia 
que respiravas, 
eu vi a poesia 
que exalavas
pois que um poeta 
enquanto vive é 
a sua poesia
e quando parte 
ele é então toda a poesia...

E, assim, tu és agora 
todos os pássaros de fogo
que sobrevoam 
a nossa inspiração,
e todos os roseirais desta vida!

Saudades, saudades, 
e para sempre
saudosos Madrinha...

quarta-feira, 16 de agosto de 2017

Cântico



Tinha um tempo em que 
eu ouvia mais a cantoria das coisas...
Da chuva, dos grilos, do farfalhar
das árvores na flauta do vento...

E até a cantoria do silêncio
que estalava na casa
quando a noite caía

Nos meus sonhos ouvia
a cantoria da lua e da neblina

E, de repente, a música das coisas
se calou...

Mas às vezes eu sinto que não,
que o cântico de tudo penetrou fundo,
e me tornou uno com as coisas do mundo

terça-feira, 18 de julho de 2017

O Sagrado Amor...



Talvez o único real aprendizado
à cada alma sobre esta terra devastada,
seja mesmo o do infinito e tênue,
tremeluzente e bruto,
aterrador e puro Amor...

O Amor que arde no sexo, 
que dói na saudade, 
que se esvai com os dias...

O Amor sonhado, o Amor dos fatos, 
e, por fim, o Amor dos Santos
que é o mais elevado!
Porque não vê cor 
nem gênero. Vê gente...

Que não vê ideologias, 
vê sonhos que voam...
Que não vê a violência,
mas a falta de Amor...
Que não vê orientações
mas a busca do Amor...

O Amor puro dos Santos,
que vive dentro de cada um 
como uma semente sonhando
que um dia será Flor...

segunda-feira, 19 de junho de 2017

A Casa Mágica...



A casa tinha muros cobertos de heras
que trepidavam à noite com a cantoria dos grilos...

O concreto úmido por debaixo delas 
dormia um sono profundo...

E apesar dos sons fortuitos do jardim e da rua,
dia e noite, o silêncio abraçava tudo
como um amante ciumento cerca sua amada...

Por dentro era quente e aconchegante,
poltronas aveludadas que pareciam convidar ao repouso

Uma lareira pequena e sólida que parecia
sequiosa dos rigores do inverno...

E cômodos perfeitos que pareciam em si
pequenas casas que aguardavam seus donos...

Janelas à frente, em direção ao jardim silente,
janelas laterais que confrontavam muros verdes...

E atrás um pequeno jardim de inverno
onde pássaros e gatos conviviam 
em harmoniosa indiferença...

Na cozinha armários perfeitos pintados de branco
um fogão com forno grande... 
Temperos nas prateleiras das janelas,
basculantes largos pintados de azul e verde...

Nessa casa faziam chás saborosos 
de receitas secretas,
bolos, de milho, laranja e maçã 
como nunca se havia provado!

Liam-se oráculos e sonhos,
conversavam com as plantas e os gnomos

Punham pedras ao sol,
benziam, rezavam, 
e pouco se importavam
com o mundo da lógica
que dá voltas atrás
do próprio rabo!

De fora era só um velho sobrado
do bairro Cidade Baixa
onde quem passava pouco se admirava
uns até diziam: "Cruzes!"...
E outros só olhavam...

E os que a admiravam
bem, esses nem sabiam,
mas haviam sido escolhidos pela casa...

quarta-feira, 31 de maio de 2017

O Espelho de Outros Mundos...


O espelho embaçado é um portal inventado
pela cantoria das panelas, que inundam a casa
com seu bafo...

O outro mundo dentro do espelho
é um submundo baço e aquático...

Ou uma viela estreita por onde passam
corredores de neblina que fogem por toda parte?

Ou quem sabe seja mesmo um portal feérico
aberto entre o corredor e a cozinha,
por onde escapuliu estes versos...?

Ou quem sabe ainda seja eu quem viva
dentro de um mundo imaginário,
a reproduzir daqui as cantorias do outro lado,
onde o mundo verdadeiro palpita inconsciente
das inúmeras realidades 
que habitam o tempo
em múltiplos espaços...?

segunda-feira, 22 de maio de 2017

Feitiço da Noite...


Dorme a estrela por sobre
o seu cobertor de casas acesas, 
como um espelho do céu...

Olha a lua o infinito,
guiando infinitamente
todos os sonhos do mundo...

As hordas da aurora
repousam longe, longe...
E os salões da madrugada
deixam a linha do horizonte
indistinta e, indistintamente, 
enegrecida as fronteiras
das lendas e da vida são
subitamente interrompidas!

Vês? O sonho agora habita 
os montes, as praças,
a luz das lâmpadas e das 
lamparinas... 

Vês? A vida toda está vestida
de cânticos e rimas, folheada
à encantamentos e poesia...

Eu junto com estes versos
a estrada de milênios
desta noite...

Meu pensamento segue
aspirando às alturas
como a fumaça do incenso...

Ouve... Nos arabescos do vento
sonham comigo as cantorias
dos grilos e dos outros poetas...

O Tempo

De todas as perdas que eu tive, a saudade do meu pai ainda é a que me dói mais. Fomos pai e filho por muitos anos, mas nos descobrimos amigo...