quinta-feira, 13 de outubro de 2016

Criadouro


Alimento todo dia, 
na pequena gaiola do meu peito,
um coração faminto de versos, 
de sonhos e poesia,
sedento de chuvas e de ventanias...
Um coração de presságios e profecias,
que eu por vezes, cheio de travessura,
deixo escapar da gaiola segura,
para se aventurar no universo das ruas...

terça-feira, 11 de outubro de 2016

A Cidade dos Bruxos


A pequena cidade dos bruxos,
tem luares sobre abóboras,
vassouras voadoras dormindo
ao lado das portas...
Gatos pretos esgueirando-se 
pelos sabás...
Tem oráculos de fumaça e fogo,
e segredos revelados
nas palmas das mãos,
e na face dos arcanos...

E nos canteiros, ervas encantadas
de veneno e cura,
e água pura que borbulha
à espera de chás bebidos
em conversas sobre o oculto,
ou em fofoca sobre os vizinhos

Na cidade dos bruxos
tudo transcorre quase quase
como no resto do mundo todo,
com a diferença de que
não há susto no que nos outros
causa muito medo...

Na cidade dos bruxos
tudo é pleno de sentidos,
e se conversa em sonhos
com os entes queridos,
que nunca são esquecidos,
e se fala com aves e flores,
e as árvores ensinam coisas
sussurradas aos ventos...

Na cidade dos bruxos
se conversa com o silêncio,
e os idosos e as crianças
são chamados de sábios...

sexta-feira, 9 de setembro de 2016

Âncora



Fui espiar a cara da lua
- Hoje maior do que nunca nos céus...!

Estava linda! Medalhão de prata
com aréolas irisadas,
um sol opaco resplandecendo
na madrugada,
um espelho de sonhos...

E meu espírito abriu asas
em sua direção,
e voltei, como sei que fiz antes,
em sonhos, em versos, em ritos atávicos...

Voei à minha casa lunar
com salões de nácar
e brisas de tule acinzentado...

Mas, uma vez lá, estranhamente,
tudo me remeteu à minha casa terráquea,
onde sonhos de beleza, amor e verdade
abrem rios de sangue no chão,
neste mesmo chão
de onde brota nossa estúpida humanidade.

Travessia Noturna


Atravesso a imensidão da noite
com minha embarcação de sonhos.

E as minhas velas estreladas,
amarradas às nuvens azuis da madrugada,
vão recortando o longe,
vão desenhando o perto...

E cruzo o imenso
oceano dos homens
que de fé, poesia, amor e risos
é quase um deserto!

terça-feira, 30 de agosto de 2016

A Árvore da Paz...


Minha infância dorme à sombra 
de uma imensa árvore de copa ampla
que enchia de flores amarelas na primavera, 
e pingava sementes dentro de vagens
que pareciam gotas despencando dos galhos, 
mas desciam girando feito helicópteros
que eu, minha irmã e vizinhos, brincávamos 
numa disputa pra ver quem conseguia apará-los
sem deixar cair no chão... O Vencedor colhia as sementes, 
brincava com elas, e depois as devolvia ao chão... 
Assim éramos todos, sem saber, 
disseminadores do gigante
que nos acolhia em seus galhos, 
e nos dava assento em suas raízes enormes...

Sucumbiu ao progresso; um terreno enorme e vazio 
atraía a cobiça dos edifícios e de seus construtores. 
O gigante calado nos viu comprar sua briga, defender sua vida,
abraçar seu tronco em protesto... Mas vieram os homens da lei, 
que nunca estiveram ao lado da beleza e da harmonia, 
e cortaram em pedaços o gigante... Dias antes,
numa ventania, ele fez gemer alto suas folhas 
e seu tronco, sabia que ia morrer!
Mas gritar a quem? Implorar por quem? 
Às crianças que corriam à sua volta?
Aos velhos que sentavam à sua sombra? 
Nem tinha flores nesse dia... Só tristeza!

Mas não importa! Ainda em algum lugar em mim 
ele viceja com sua copa verdejante,
com suas flores amarelas e seus helicópteros de alegria, 
que trazem na barriga as sementes do descanso 
que hoje vai longe, naqueles dias sem pressa, 
naquele tempo em que o tempo
parecia nos conduzir à eternidade de dias iguais 
em leveza, prazer e sonhos bons...
Descobri mais tarde que o gigante se chamava guapuruvu... 
Que significa "madeira podre" em guarani... Mas tomei a decisão 
de que significa para mim, e para sempre, "madeira da paz",
onde estou deitado à sombra de suas flores até hoje,
escrevendo versos que abrem asas ao infinito...

quinta-feira, 21 de julho de 2016

A Construção das Coisas...



Que não nos vençam esses caminhos 
crivados de dor e ausências, esvaziados
de abraços, lembranças e sonhos
e de memórias ancestrais... 
De risos por nada, de gentilezas
simplesmente esparramadas
para o outro, sobre o outro,
de muito amor dado de graça...

Mas tais caminhos de amor
nunca foram trilhados, foram só sonhados
(eu sei que vós todos me direis),
tu és poeta e não sabes de nada!
Tais coisas nunca houveram, nem haverão...
Tudo o que temos é o que sonham
os outros que anseiam esses sonhos...
Mas como são loucos, nunca os seguirão...
São bonitos e loucos, mas são tão poucos
os que sonham tais sonhos que nos resta
chamar de loucos esses que assim como tu
anseiam tais coisas, tão simples e puras,
mas que nunca existiram, nem existirão...

Mas enfim, faz parte de mim, e dessa sina
de escrever sonhando o que anseia
essa voz íntima, que toca as outras vozes
secretas que habitam os outros corações
que, apesar de empedernidos, se enlevam 
e suspiram baixinho comigo ao lerem 
meus versos... A esses dedico o meu
sagrado ofício de desenhar os caminhos
que os sonhadores do futuro realizarão!

terça-feira, 24 de maio de 2016

Aquário


As lágrimas da noite embaçam a vidraça
e criam um mundo turvo e paralelo...

De repente estou num estranho mundo-aquário
onde tudo é vago, nebuloso e solitário...

Onde divago com meus sonhos de corsário
e de errante pelas vagas da noite rumorosa

Caçando os sentidos com meus versos
guiados pelo clarão da lua imaginária...

Enquanto a lua real treme de frio lá fora
enrolada, em vão, nos lençóis da neblina...

O Tempo

De todas as perdas que eu tive, a saudade do meu pai ainda é a que me dói mais. Fomos pai e filho por muitos anos, mas nos descobrimos amigo...