segunda-feira, 24 de setembro de 2012

*Ostara




Quem acendeu o Sol e o fez levantar-se mais cedo no horizonte? Quem emparelhou a noite com o passo do dia? São puro acaso? Movimentos mecânicos sem importância que regulam os corpos celestes?... Ok, que seja! Não é maravilhoso estar vivo num tempo assim e usufruir de uma consciência capaz de testemunhar tudo isso? O florir dos ipês e jacarandás, a ventania que sopra longe o pólen e as sementes e os perfumes que tonteiam as abelhas e afinam o canto do Sabiá?...
É fácil imaginar porque os povos antigos viam nisso a manifestação dos deuses, porque eu mesmo não consigo imaginar outra explicação senão um ato de pura benevolência com a vida e a humanidade, bem como com todos os seres vivos! Ora, qual o significado da primavera? O retorno da luz e das flores, o influxo da vida por sobre todos os viventes, o nascimento de um novo ciclo onde a claridade triunfa e antevê o próprio fim e recomeço... É a dança do tempo no seu baile anual. É mais que um movimento casual, é um milagre bem ao alcance dos nossos olhos!

*Ostara, nome do rito pagão de celebração do equinócio 
de primavera e do retorno do grande Deus, o Sol.

quinta-feira, 23 de agosto de 2012

Visão



Um dia dobraremos
sobre nosso orgulho
e, de joelhos,
no oratório
de nossos corações
abriremos a janela
que nos revelará
a visão de Deus!... 

Que nada mais será
que a imensa, linda,
distante e envolvente,
plena e vazia,
Imagem de um céu
repleto de constelações...

quarta-feira, 22 de agosto de 2012

Anoitecer





Fluida como a água
a noite desceu a montanha,
inundou as casas
e os grilos fizeram
trepidar o chão... 

E o silêncio
ficou tão presente

Que era possível tocá-lo
com a mão!...


sexta-feira, 3 de agosto de 2012

As Vozes Perdidas

Um dia minha tia Fátima veio me falar de ter encontrado uma antiga gravação em k7 onde eu e minha irmã brincávamos de fazer entrevistas.

Eu já tinha lá meus 17 anos e lembro-me de ter perguntado “E aí, como estava a gravação?” ao que ela respondeu “Ah, só ouvi umas risadas e umas perguntas que não entendi... Depois as vozes sumiram e só restou um chiado...” fiquei pensando na época “Onde foram nossas vozes?” Imaginei que atiradas ali na velha caixa de plástico do k7, as vozes daquelas duas crianças órfãs de mãe, que enfim riam, saíram por aí procurando outras lembranças menos doloridas de lembrar. 

E hoje, depois de tanto tempo, e já que tudo se foi, inclusive minha tia Fátima, eu me peguei pensando nelas e rezando também!... Tomara que elas continuem rindo, e que tenham aprendido a cantar canções de amor de uma outra infância, uma infância mais feliz de se sonhar. Que tenham encontrado no reino do abstrato outra mãe que as acarinhe em seus braços, e que tenham com ela longas entrevistas amorosas que se estenderão pelos tempos... E para sempre!


quarta-feira, 18 de julho de 2012

Tarot



Fui seduzido por tua dança de vida e de morte,
por tuas imagens misteriosas e assombrosamente familiares,
com Loucos e Torres Fulminadas, Sumo Sacerdotes,
Carruagens e Sacerdotisas encantadas!

Por teus gládios e copas, bastões e pentagramas
e por teu turbilhão figurativo que cria um espelho claro,
um portal com setenta e oito chaves
no qual a vida se revela, abrindo suas pétalas,
suas pernas e mostrando sem pudor
os seus meandros, sempre de modo inesperado!

Fui seduzido por tuas imagens, mitos e analogias
nas criações infinitas às quais empresta tuas imagens sagradas...

Vi minha visão ampliar-se
e minha percepção tornar-se precisa,
profunda e clara como a incisão de uma faca...
E hoje então eu vejo por trás das máscaras,
e isto não tornou-me cínico
mas sim incrivelmente atento
à beleza estonteante da dança dos ciclos

De morte e renascimento,
de encontros e despedidas
à qual estamos todos submetidos...

quinta-feira, 21 de junho de 2012

Outono... Inverno



A terra descansa da lida
das flores e dos frutos.
O sol mais cedo morre nas
entranhas do chão

e o vento suspira cada vez
mais longamente...
No canto dos pássaros
que é quase um choro...
Nas lágrimas amarelecidas
das folhas de outono...

Dorme a paisagem numa
estação de silêncios
onde o passo se apressa
com o frio da noite
enquanto descem, discretos
os toldos dos restaurantes,
e até os grilos se encolhem de frio...

"É tão triste!" dizem alguns.
"É tão escuro!" dizem outros...
"É tão bom!" digo eu.

As dobras do tempo vão se chegando
e as portas da luz se fecham
nessa estação!
Os que olham pra fora
veem a dor que já estava lá!
Enquanto os que olham pra dentro
reencontram a luz!

segunda-feira, 4 de junho de 2012

Elegia Canina


in memoriam à uma cocker spaniel inesquecível!...


No dia 4 de junho de 2009
morreu uma encarnação da ternura
que atendia pelo nome de Julie,
vivia sobre quatro patas,
olhava com irremediável doçura
e nunca, nunca mesmo,
mostrou desafeto por quem quer que fosse!


Recebia a todos com gravetos de flores
latinhas de suco e até
com seu bem mais precioso:
Uma boneca de pano
com cabelos vermelhos
que oferecia à altura da mão
dos visitantes até que a pegassem.


Sobre aqueles que temia,
ou muito estranhava, apenas olhava
e sobriamente oferecia a pata direita
como quem formalmente repetisse
um cumprimento social de
"Bom dia", sem baixar, nem diminuir
a candura daquele olhar!



















Sempre esteve ao lado dos seus
em crises, doenças ou acessos de choro,
ali ficando até a melhora, e então dormia
como quem tivesse cumprido uma missão.
Não era meu animal de estimação
mas de uma tia, já falecida, que a tinha
como sua maior amiga e melhor companhia.


Ela morreu de modo indigno
- sacrificada - porque a humanidade se
incomoda quando seus bichinhos
adoecem e já não podem ser atração
na ponta de uma coleira.
Não me despedi, e confesso que na correria
que eu mesmo criei, a esqueci.


Com um tanto de remorso, saudade e culpa
escrevi o que já havia reconhecido:
Que toda a bondade que se sonha e idealiza
na humanidade ela já tinha.
Enquanto nós com nossos livros
tratados, religiões e sonhos
andamos apenas procurando ser...


Sem tratados ou religiões,
filosofias ou opiniões,
ela me ensinou a ser cordial
com os estranhos e mesmo
na desconfiança, a ser gentil.
Me ensinou a ser fiel sem cobrar um preço
e mesmo que sem dizer nada
passar a certeza de que se está ali!


Escrevi esse poema para que mais
pessoas saibam que ela esteve aqui
e para que se lembrem
de que tudo o que ela foi
é possível a nós, embora mais difícil,
pois carecemos de pureza,
já que a inteligência também
criou a ambição e a concorrência!


Por isso e pelo carinho,
pela recepção calorosa,
pelo toco de cauda abanando
depois de um longo dia de esforço,
pela boneca de pano entregue na mão,
pelo amor e a confiança
e pelo toque amoroso do olhar...


MUITO OBRIGADO POR TUDO JULIE!

O Tempo

De todas as perdas que eu tive, a saudade do meu pai ainda é a que me dói mais. Fomos pai e filho por muitos anos, mas nos descobrimos amigo...